sábado, janeiro 27, 2007

Palavras inúteis



















Palavras inúteis


Seus olhares se cruzaram ainda no botequim, antes do dia acontecer. Nenhuma troca de sorrisos ou expressão, apenas o olhar, frio, seco. Mais tarde se encontraram no café, era perto de nove da manhã. Ainda sem sorrir, ela começou a conversa:

_Preciso te ser franca, tenho um segredo a revelar antes que qualquer coisa aconteça entre a gente.

_Mas que coisa, ainda não aconteceu nada...

_Nada?

_Quer dizer, o que pode ser tão sério assim à ponto de...

_A verdade é que eu não sou feliz. Não sou feliz, esse é meu maior segredo. Tenho quase tudo e mais um pouco para estar satisfeita com a vida mas não sei exatamente porque, não fui e nem sou feliz, e não adianta tentar mudar isso.

_Sabe, eu também sofro, e não tenho motivo pra isso.

_Eu tenho muitos motivos, mas a verdade é que eu jamais poderia ser feliz...

_Te entendo

Eles se olhavam profundamente nos olhos, como quem encontrasse nas profundezas da escuridão abissal uma faíscazinha de luz.

_Eu sou desde o início...

_Eu tb...

_Eu sou desde o início que agente...

_Sim, eu...

_Eu queria te evitar maiores sofrimentos no futuro

_Se soube mesmo o que te inibe agora?

_O espanto.

_Que espanto?

_O espanto diante a verdade

_Que verdade?

_No que eu soube, estava certa, mas...

_Mas...?

_Talvez estivesse errada quanto a meu grande segredo.

_Te etendo. Me parece que é recíproco. Percebo que será inevitável nos arriscarmos...

_Sua sensibilidade, foi isso que me atraiu. Acredito nestes casos onde não temos controle algum do que faremos, valha mesmo à pena arriscar tudo.

_Arrisque!

_Já o estou fazendo.

_Meu coração, ele...

_Sim. Estou sentindo. O meu também.

_É você estava errada mesmo quanto ao seu segredo, e eu em acreditar que sabia de tudo só por sentir... Vejo agora que errar é o melhor dos acertos.

_Vamos à cachoeira?

_Porque não? Está um sol lindo.

_Você tá...

_Eu sei.

_Pra que conversamos? Parece que já nos entendemos desde que nos olhamos. Que é isso?

_Isso é ..... - pensou por muitos minutos enquanto caminhavam com um sorriso segurado que tenta rasgar-lhes a face, e depois prosseguiu, lentamente sua resposta, como se a pergunta tivesse acabado de ser feita:

_É o que a própria busca da pergunta é... o mistério.


Saíram juntos para a cachoeira. Retornaram sujos de terra e com os pés descalços. O sorriso lhes era inevitável. Os passos eram leves e sem pressa. Foi a maior tarde de suas vidas, durou toda uma vida.






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